quinta-feira, 19 de setembro de 2013

QUERIDO FILHO,

como anda difícil a nossa comunicação, vamos tentar por carta.
É, você deve estar estranhando, carta, coisa tão antiga, né? Mas, você sabe, eu sou antigo.
Fiquei sabendo, não me pergunte como, que você anda pensando (não vá tropeçar...) em ir a Ituiutaba. Aprazível cidade do nariz de Minas. Foi lá que você foi gerado, sabia? Em chegando, pergunte pelo Hotel Tiradentes e, se ainda existir, faça uma reverência ao local de sua concepção (totalmente contra minha vontade, naqueles tempos).
Estávamos, sua mãe e eu, começando a vida e sua vinda poderia esperar mais um pouco. Acho até que seria melhor para você. Mas, início dos anos 50, não havia toda essa facilidade contraceptiva, tanto física quanto moral, dos seus tempos atuais. Então... Salve o Hotel Tiradentes!
Antes que você faça essa cara espantada, lembre-se que entre a geração e o parto são mais ou menos nove meses e, assim, você foi nascer em Belo Horizonte. Sua mãe, como toda mulher, fazia questão de parir com todas as garantias tecnológicas existentes na época desde que fossem ao alcance do bolso. Eram. Consequência, aí está este cidadão. Mineiro de belzonte, mas do mundo – não vá me envergonhar! Como te conheço, não vá também fazer cara feia por causa do “totalmente contra minha vontade”. Eram tempos difíceis, início de vida, de carreira, mudança de cidade, sonhos, etc, etc. Não preciso lembrar o quanto te amo. Ou preciso? Se sim, você não cresceu nada, continua um bobão carente. Tomara que não.
Sinto o equivalente a saudades de Ituiutaba. Sua mãe e eu éramos jovens, começando a vida e Ituiutaba era, para nós, o umbigo do mundo. O cotidiano se resumia em trabalho, cinema e cama. Mas, grande qualidade humana, a paixão faz de tudo um nirvana. Para sua mãe era uma breve escala na grande e vitoriosa jornada que tínhamos pela frente. Para mim era um trampolim onde eu iria ensaiar meus primeiros saltos. Ornamentais.
Mas, tudo isso é só pretexto para essa carta. Sei lá, depois de tanto tempo sem te ver, a notícia desse seu plano de ir a Ituiutaba me impeliu a falar com você. Repetindo, dada a nossa incapacidade de comunicação, resolvi te escrever.
Já sei, já sei... Você sempre tentou falar comigo, nhém-nhém-nhém, coisa e tal. Mas, você não pensa que eu também tento me comunicar (às vezes) e você não percebe? Cabeça dura você é! (Saiu à mãe...)
As coisas aqui são difíceis de explicar. Só quando você vier é que vai entender. Tentando fazer um paralelo que seja inteligível para sua limitada forma de raciocínio, tudo pode ser resumido em sensações. Não pense que é o paraíso. Ainda estamos longe dele. Mas, com certeza, é infinitamente melhor do que aí.
Claro que sinto algo parecido com falta de vocês todos. Mas, são tantas coisas novas, e, principalmente, tão diferentes. As etapas vão se sucedendo e, pra piorar, não existe essa noção de tempo. Você lembra que, aí, eu já tinha problemas de sincronização. Agora então, para relacionar com o seu relógio é uma dificuldade! Aqui não há essa coisa de tempo fixo, determinado em segundos, minutos, etc. São, como já disse, etapas. Que vão se sucedendo em paralelo. É muito legal. Você vai gostar. Sinto muito, mas não dá pra explicar melhor. Ainda bem, pois se desse, te manjo, você ia sair contando pra todo mundo e ia virar guru ou beato ou outras bobagens cujas, definitivamente, não seriam o melhor caminho para meu filho querido.
Percebo o quanto você sente minha falta. E percebo também que você está indo muito bem sem mim. Não faz drama! Sei dos sufocos que você tem passado, mas sei também das alegrias. Então dê mais valor às alegrias e deixa de ser chato. E para também com essa mania de achar que, só porque estou aqui, tenho poderes superiores. Não é nada disso. Claro que uma ajudinha, às vezes, a gente pode negociar. Mas, geralmente, vocês só querem coisas inviáveis. Ou muito difíceis. Ou, pior, quando pedem coisas simples, não entendem os sinais. A gente bem que tenta, mas nós temos mais o que fazer, sabia? Ou vocês acham que é só festa, musiquinha de flauta, todo mundo de branco, imagens desfocadas de lindas paisagens? Ledo engano.
Lembrei agora de uma expressão que eu gostava muito: “Ledo e Ivo engano”. Do Stanislaw, brincando com o Ledo Ivo, estou correto? Aliás, ótima figura o Stanislaw. Temos compartilhado excelentes realizações. Babou? Eu sei que você sempre foi fã da fina flor dos Ponte Preta. Mas, pasme, aqui ele é outra configuração. Organizado, cheio de disciplina... Quem conheceu, até estranha. Quanto ao Ledo Ivo, acho que ainda está por aí... Não sei, aqui não costumamos nos tratar pelo nome. Como já te disse, são sensações. Ou algo parecido.
Quero te esclarecer sobre a partida. Não teve dor, só susto. Muito susto. Aquele caminhão entrando pela frente foi, no mínimo, uma situação inenarrável. Depois, a adaptação – já entendi que, nesses casos súbitos, é mais demorada. Pra mim foi complicado. Entendeu agora aquela aparição “sobrenatural” que eu aprontei depois da missa de sétimo dia? Foi isso. A adaptação ainda estava difícil. A gente demora um pouco pra entender. Mas logo ficou tudo bem. Depois que a gente “entra no clima” vai descobrindo que é muito bom. (Não espalha e não se empolga. Tudo tem sua hora.)
Foi chato aquele velório. Não tive oportunidade de deixar o pedido de cremação. Ainda bem que você sacou que o invólucro não tem nada a ver com a alma. Acabou, acabou. Mas você bem que podia ter dado uma olhadinha no caixão. Apesar da trombada eu ainda estava bonitinho.
É isso.
Se, realmente, você estiver em Ituiutaba no dia 13 de dezembro (meu aniversário, lembra?) espero que possa sentir a mesma alegria que eu tinha quando ali vivi.
Sensações, meu filho, são maravilhosas e inexplicáveis.
Graças a Deus.
Fico por aqui. Te cuida e tenta prestar mais atenção nas coisas em geral.
Um beijo.
Papai.

11 comentários:

  1. Meu pai se mandou em 1979.
    Essa carta foi "psicografada" em 2001 ou 2002, não lembro direito.
    E hoje (não tenho a menor ideia do porque) me bateu uma saudade danada dele.
    Fica o registro.

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  2. É... não deu... morri de chorar!!!

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    1. Não é pra isso tudo, né, Bogoiô...
      Ou é?

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  3. Sensações...muito bom saber disso.
    Abração, grande Tiago
    fernando cals

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  4. Salve, salve, Tiago! Uau... Carta linda demais! E ótima dica: prestar mais atenção nas coisas em geral. Viu?

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  5. Desabei de chorar 2! É pra tudo isso sim! E Maria Antonia anda perguntando muito do meu avo Ricardo que virou estrelinha antes deu nascer! Tudo junto

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  6. CIDADÃO,
    BELA PSICOGRAFADA. VOCÊ, REALMENTE, É INSUPERÁVEL.
    ABS.,
    DÊNIS KLEBER

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